terça-feira, 12 de dezembro de 2017
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Doação de rins salva vida de estudante e de agricultor; eles aguardavam órgão na Central de Transplante de Rondônia

Gabriel de Paula Santos, 21 anos, e Evangelista José dos Reis, 54 anos, dividiram o sofrimento de depender de máquinas de hemodiálise para se manterem vivos. Hoje comemoram juntos o transplante de rins realizado recentemente com sucesso pela Central de Transplantes de Rondônia do Hospital de Base Ary Pinheiro, em Porto Velho.

Evangelista descobriu o problema renal há seis anos quando fazia atividades típicas de um sitiante. ‘‘Passei mal e procurei o médico que me disse que se eu não fosse fazer hemodiálise no dia seguinte, estaria morto. Eu nem sabia o que era hemodiálise’’, conta ele que chama a máquina de hemodiálise de ‘salva-vidas’.

Eram quatro horas, três vezes na semana, com cateter ligado a máquina que filtra o sangue, considerado um rim artificial. Nos braços, Evangelista mostra as marcas de anos de dependência desse procedimento. ‘‘É muito sofrido’’, relata. Para acabar com o sofrimento, ele entrou para a fila de espera para transplante.

Depois de um ano foi chamado, mas o rim não era compatível. Evangelista não desanimou. Saiu do município de Rolim de Moura com a esposa e mudou-se para Porto Velho. ‘‘Queria ficar mais perto para quando aparecesse o rim, pois é tudo muito rápido’’, disse. Ele foi chamado uma segunda vez, mas novamente não foi possível o transplante. ‘‘Eu sempre pensava, a minha hora vai chegar’’.

E chegou. Ele conta que estava sozinho em casa quando recebeu a ligação. Do outro lado da linha a notícia que ele esperava há cerca de quatro anos: “Encontramos um rim compatível”. Era o fim do sofrimento. A cirurgia durou cerca de 4 horas e o sentimento é de gratidão. ‘‘Agradeço a Central de Transplante, toda a equipe que me tratou com muito carinho e também ao doador’’, disse.

 

‘‘Agradeço a Central de Transplante, toda a equipe que me tratou com muito carinho e também ao doador’’, Evangelista Reis, sitiante

 

Gratidão também é o sentimento que define Gabriel. Morador do município de Cacoal, ele descobriu o problema renal há cerca de dois anos. ‘‘Tive que parar de estudar e trabalhar. Tinha pressão alta, anemia forte e muita fraqueza’’, conta. A mãe dele foi a primeira a se prontificar a doar, mas devido não ter condições clínicas ideias o transplante não foi possível.

Depois de um ano e três meses, ele também recebeu a ligação que tanto desejava. ‘‘Meu coração bateu apertado’’. Agora com o novo rim, ele volta a sonhar. ‘‘Vou retomar a minha faculdade de engenharia civil’’, planeja.  ‘‘Eu só tenho que agradecer a Deus, a família do doador que teve esse gesto de salvar outras vidas e a segurança que os médicos passaram’’, destaca.

Fazer cirurgias de transplante no próprio Estado é um dos grandes avanços da saúde pública de Rondônia. Segundo o coordenador da Central de Transplantes, Alessandro Prudente, as atividades da central teve início em 2006 dando apoio aos pacientes para fazerem transplantes fora do Estado e de 2011 a 2014 eram feita também  cirurgias de retirada de órgãos, mas a partir de 2014 começou a realizar os transplantes de rins e córneas no Estado .

De 2014 a 2017 foram realizados cerca de 230 transplantes de córneas e 52 de rins. O coordenador ressalta que os pacientes contam uma estrutura de um hospital de alta complexidade e profissionais especializados. Há dois anos o Estado contratou um cirurgião especialista em transplante hepático. Mas as cirurgias ainda são feitas fora do estado.

O profissional fica uma semana por mês acompanhando o pré e pós-operatórios de pacientes que receberam um novo fígado. O que evita o desgaste de pacientes com viagem para fora do estado para continuarem os procedimentos médicos depois do transplante. Em 2016, a central ganhou o Banco de Olhos. E a mais recente aquisição da Central de Transplante são duas máquinas de perfusão de rins.

Esses equipamentos fazem parte de uma iniciativa da equipe de utilizar alternativas para ampliar a disponibilidade de órgãos seja com a captação de órgãos de outros estados ou em condições clínicas inferiores as ideais.

‘‘Elas chegaram há um mês e há cerca de uma semana os profissionais passaram por treinamento. Essas máquinas servem não só para armazenar os rins, mas também melhora a qualidade deles’’, considera o coordenador que diz que os equipamentos estão aptos a serem usados aguardando apenas a chegada dos órgãos. Com essas máquinas, o rim fica preservado de seis a 12 horas.

Avanços e investimentos importantes para garantir a segurança e eficiência dos transplantes.

RESISTÊNCIA

Gabriel e Evangelista, vidas que foram mudadas pela capacidade de alguém de se colocar no lugar do outro. Algo raro no Brasil onde segundo o coordenador da Central de Transplantes de Rondônia Alessandro Prudente, a taxa de recusa da família em autorizar a doação de órgãos é de cerca de 40%, enquanto que em Rondônia chega a aproximadamente 75%.

A espera desses dois pacientes só não foi mais longa porque a família de um policial que sofreu acidente no município de Cacoal teve um gesto de solidariedade em autorizar a doação. Os rins do policial acabaram com o sofrimento de Gabriel e Evangelista que agora, como eles mesmos definem, são ‘‘irmãos de rins’’.

Mais pessoas aguardam um gesto como esse para também terem direito a um recomeço. De acordo com o coordenador, 95 pacientes esperam pelo transplante de rins, outros 300 passam por exames para serem aptos a entrarem para o cadastro e mais 100 estão no aguardo do transplante de córneas.

Este ano, segundo o coordenador, foram feitos 40 transplantes de córneas e 12 renais. Ele explica a diferenças no processo de doação e transplante dos diferentes órgãos. Enquanto as córneas podem ficar armazenadas por até duas semanas, os demais órgãos como os rins precisam ser transplantados em questão de horas.

” E só podem ser aproveitados de pacientes que tiveram morte cerebral, mas o coração continua batendo”. Situação que faz a fila para o transplante de córneas andar mais rápido que a de rins.

Mas seja qual for o órgão, a principal barreira continua sendo a recusa das famílias em autorizar as doações. Este ano, por exemplo, foram registrados apenas quatro doadores de rins. Para o coordenador, se fossem feitos 50 transplantes de rins por ano, a fila pararia de crescer. Meta que deve ser atingida entre quatro a oitos anos. Para este ano, a central pretende alcançar 24 transplantes renais.

Mas tudo depende do quanto à população esteja sensível a atender o anseio desses pacientes em terem uma nova vida a partir dos transplantes. Além da central localizada em Porto Velho, o trabalho de sensibilização de famílias é feito nos municípios de Ji-Paraná, Cacoal e Vilhena que com o apoio de aeronaves disponibilizadas pelo Estado fazem o deslocamento dos órgãos.

Transporte mais rápido de órgãos, estrutura hospitalar de alta complexidade, profissionais capacitados, equipe empenhada em sensibilizar famílias, todos esses esforços valem a pena quando o órgão é transplantado com sucesso. É mais que uma cirurgia, é a mobilização pela vida.

SOLIDARIEDADE

O coordenador e médico urologista Alessandro Prudente não esquece a madrugada de Natal de 2013 quando uma família autorizou a doação dos órgãos de uma criança. ‘‘Em um momento de grande sofrimento, eles decidiram ajudar outras duas crianças’’, ressalta. Ele pede para que mais pessoas tenham atitude como essa.

‘‘Somente conhecendo a necessidade das pessoas que estão esperando pelo transplante ou de como as pessoas tiveram suas vidas transformadas após o transplante é que as famílias podem entender a importância de autorizar a doação nesse momento de dor, por mais difícil que seja’’, considera.

Gabriel e Evangelista reforçam o pedido para que as famílias não resistam a autorizar as doações. ‘‘A gente sabe que é um momento de dor, de luto, uma decisão difícil, mas é uma oportunidade para pessoas que estão sofrendo possam voltar a sonhar’’, disse Gabriel. ‘‘Doem porque é uma vida que salva’’, afirma Evangelista.

O coordenador alerta ainda sobre a importância de cada um comunicar à família que deseja ser um doador de órgãos. ‘‘Avise a família naquele almoço de domingo. Poste nas redes sociais, não tem valor legal, mas ajuda na decisão da família’’, considera.

 

Fonte
Texto: Vanessa Moura
Fotos: Jeferson Mota
Secom – Governo de Rondônia

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